domingo, 14 de novembro de 2010

Processualidade mundana e poder

"Nada pertenceu em maior medida a uma pessoa do que aquilo  que se transformou em seu escremento. A pressão constante sob a qual se encontra a presa transformada em comida, durante todo o longo tempo em que peregrina pelo corpo; sua dissolução e a íntima conexão que estabelece com aquele que digere; o completo e definitivo desaparecimento primeiramente de todas as funções, depois de todas as formas que um dia compuseram sua existência; sua equiparação ou assimilação ao corpo já existente desse que a digere - tudo isso pode ser muito bem visto como o fenômeno mais central, ainda que mais recôndito também do poder. Trata-se de um fenômeno tão óbvio e tão além de todo o consciente, que se lhe subestima o significado". (Elias Canetti. Massa e Poder).
Inobstante a importância do tema, nunca falamos acerca da relação existente entre processualidade mundana e poder. O trecho transcrito deixa claro que  o que se processa no meio social é reflexo daquilo em que o poder se traduz internamente, em cada um de nós, - o processo de digestão: a absorção biológica do mais fraco pelo mais forte.
Já há muito, na humanidade, referida absorção deixou de ser uma absorção biológica, tornando-se mais sutil - e, porque mais sutil, mais perigosa e mais eficaz -, tornando-se social. Entre os homens, os fortes fazem de escada os fracos, alimentando seu status sem, necessariamente, eliminá-los. Em verdade, sua força perde o sentido quando não há subjugado. Quem se pretende superior não hesita em rebaixar seus pares, restringindo-lhes direitos e capacidade de resistência. O homem, enquanto seu próprio predador, não digere a carne, mas o poder de seus semelhantes.
Entendemos por processualidade mundana a dinâmica das reações e contrarreações possíveis no todo social,  produzidas, não se pode negar, num jogo de poder. Equivale a dizer que se a processualidade mundana fosse - como é - um conjunto de engrenagens sociais, o poder seria, em último nível, sua força motriz.
Somos todos sujeitos de poder. E, de fato, o poder máximo existente num organismo social não é coisa outra senão a soma das parcelas de poder que  seus componentes cedem para tornar possível a realização do contrato social que firmaram. Essa afirmativa coloca em evidência a relação entre sujeito e Estado, ocultando, propositalmente, as relações que podem se realizar entre o sujeito e seus semelhantes, o que se explica pelo fato de que o Estado-instituição é a ferramenta ideal para satisfazer qualquer pretensão de dominação do homem pelo homem, dada a autoridade presumida que este ente possui. 
Oculta-se as relações de poder possíveis entre os sujeitos  para que fique oculta  a possibilidade concreta de o Estado funcionar como a ferramente mais precisa de tomada das rédeas de um todo social.
Isso porque, conforme anotado, nós, ao assinar o contrato social, é que legitimamos a autoridade estatal, e, transferindo ao Estado parte de nosso poder (poder político), conferindo-lhe força para fazer valer tal autoridade, contra nós mesmos. A autoridade suposta do Estado é, nesse sentido, a máscara ideal para quem queira dominar seu par.
O processo legislativo, a eletividade dos cargos políticos, a judicialização  das controvérsias - e todo o aparato que a envolve - nada mais são, assim, do que os disfarces para a dominação do fraco pelo forte no Estado de Direito. Apenas conferem aceitabilidade a uma dominação que está presente dia e noite (ônus do contrato social firmado...).
A processualidade mundana, enquanto feixe de possíveis posições humanas qualificadas, estas componentes de uma rede de relações de reação-contrarreação de um sujeito em relação a seus pares, é o universo das formas como, no contexto social, o homem pode digerir o poder dos demais. Das formas como o homem pode se pôr em evidência, das formas como o homem pode dominar os demais...
A cada vez que nos propomos a analisar uma dessas posições qualificadas - posições em sentido estrito, proposições, interposições, oposições... -, nos dispomos a fazer um recorte nessa rede de reações possíveis, em que os sujeitos são os próprios conectores, para mostrá-las de forma isolada. Contudo, de maneira conjunta é que cada uma dessas reações impulsionam a vida em sociedade, mediante o papel que cada um assume nesse todo. Senão, vejamos.


Tomando o vídeo acima como exemplo inicial, e não deixando de ter em mente tratar-se de um vídeo humorístico, que, por humorístico que é, é também exagerado, nos colocamos diante de ações humanas (rectius, reações sociais), que, individualmente consideradas, parecem inofensivas. Mas que, se consideradas no contexto universal das reações sociais possíveis - a própria sociedade -, se revelam altamente nocivas.
Imaginemos que, nessa situação (estar em situação é ser em sociedade, como bem ensina FERRAZ JR.), o receptor da mensagem que a personagem emitiu fosse esse:



Certamente, a reação não seria pacífica.
Imaginemos, agora, que diante da discussão que obviamente estaria acontecendo, essa pessoa resolvesse intervir:



Naturalmente, a discussão, nesse ponto, compor-se-ia de falas jogadas, que nenhum dos contendores seria capaz de captar. Imaginemos que, para tentar uma tregua, esse indivíduo interviesse:



Imaginar a discussão travada entre essas pessoas não só revela a multiplicidade de ações (reações) e reações (contrarreações) possíveis, mas também ilustra quão caótica a vida em sociedade pode ser. Processualidade mundana é isso, e demanda uma: