domingo, 14 de novembro de 2010

Processualidade mundana e poder

"Nada pertenceu em maior medida a uma pessoa do que aquilo  que se transformou em seu escremento. A pressão constante sob a qual se encontra a presa transformada em comida, durante todo o longo tempo em que peregrina pelo corpo; sua dissolução e a íntima conexão que estabelece com aquele que digere; o completo e definitivo desaparecimento primeiramente de todas as funções, depois de todas as formas que um dia compuseram sua existência; sua equiparação ou assimilação ao corpo já existente desse que a digere - tudo isso pode ser muito bem visto como o fenômeno mais central, ainda que mais recôndito também do poder. Trata-se de um fenômeno tão óbvio e tão além de todo o consciente, que se lhe subestima o significado". (Elias Canetti. Massa e Poder).
Inobstante a importância do tema, nunca falamos acerca da relação existente entre processualidade mundana e poder. O trecho transcrito deixa claro que  o que se processa no meio social é reflexo daquilo em que o poder se traduz internamente, em cada um de nós, - o processo de digestão: a absorção biológica do mais fraco pelo mais forte.
Já há muito, na humanidade, referida absorção deixou de ser uma absorção biológica, tornando-se mais sutil - e, porque mais sutil, mais perigosa e mais eficaz -, tornando-se social. Entre os homens, os fortes fazem de escada os fracos, alimentando seu status sem, necessariamente, eliminá-los. Em verdade, sua força perde o sentido quando não há subjugado. Quem se pretende superior não hesita em rebaixar seus pares, restringindo-lhes direitos e capacidade de resistência. O homem, enquanto seu próprio predador, não digere a carne, mas o poder de seus semelhantes.
Entendemos por processualidade mundana a dinâmica das reações e contrarreações possíveis no todo social,  produzidas, não se pode negar, num jogo de poder. Equivale a dizer que se a processualidade mundana fosse - como é - um conjunto de engrenagens sociais, o poder seria, em último nível, sua força motriz.
Somos todos sujeitos de poder. E, de fato, o poder máximo existente num organismo social não é coisa outra senão a soma das parcelas de poder que  seus componentes cedem para tornar possível a realização do contrato social que firmaram. Essa afirmativa coloca em evidência a relação entre sujeito e Estado, ocultando, propositalmente, as relações que podem se realizar entre o sujeito e seus semelhantes, o que se explica pelo fato de que o Estado-instituição é a ferramenta ideal para satisfazer qualquer pretensão de dominação do homem pelo homem, dada a autoridade presumida que este ente possui. 
Oculta-se as relações de poder possíveis entre os sujeitos  para que fique oculta  a possibilidade concreta de o Estado funcionar como a ferramente mais precisa de tomada das rédeas de um todo social.
Isso porque, conforme anotado, nós, ao assinar o contrato social, é que legitimamos a autoridade estatal, e, transferindo ao Estado parte de nosso poder (poder político), conferindo-lhe força para fazer valer tal autoridade, contra nós mesmos. A autoridade suposta do Estado é, nesse sentido, a máscara ideal para quem queira dominar seu par.
O processo legislativo, a eletividade dos cargos políticos, a judicialização  das controvérsias - e todo o aparato que a envolve - nada mais são, assim, do que os disfarces para a dominação do fraco pelo forte no Estado de Direito. Apenas conferem aceitabilidade a uma dominação que está presente dia e noite (ônus do contrato social firmado...).
A processualidade mundana, enquanto feixe de possíveis posições humanas qualificadas, estas componentes de uma rede de relações de reação-contrarreação de um sujeito em relação a seus pares, é o universo das formas como, no contexto social, o homem pode digerir o poder dos demais. Das formas como o homem pode se pôr em evidência, das formas como o homem pode dominar os demais...
A cada vez que nos propomos a analisar uma dessas posições qualificadas - posições em sentido estrito, proposições, interposições, oposições... -, nos dispomos a fazer um recorte nessa rede de reações possíveis, em que os sujeitos são os próprios conectores, para mostrá-las de forma isolada. Contudo, de maneira conjunta é que cada uma dessas reações impulsionam a vida em sociedade, mediante o papel que cada um assume nesse todo. Senão, vejamos.


Tomando o vídeo acima como exemplo inicial, e não deixando de ter em mente tratar-se de um vídeo humorístico, que, por humorístico que é, é também exagerado, nos colocamos diante de ações humanas (rectius, reações sociais), que, individualmente consideradas, parecem inofensivas. Mas que, se consideradas no contexto universal das reações sociais possíveis - a própria sociedade -, se revelam altamente nocivas.
Imaginemos que, nessa situação (estar em situação é ser em sociedade, como bem ensina FERRAZ JR.), o receptor da mensagem que a personagem emitiu fosse esse:



Certamente, a reação não seria pacífica.
Imaginemos, agora, que diante da discussão que obviamente estaria acontecendo, essa pessoa resolvesse intervir:



Naturalmente, a discussão, nesse ponto, compor-se-ia de falas jogadas, que nenhum dos contendores seria capaz de captar. Imaginemos que, para tentar uma tregua, esse indivíduo interviesse:



Imaginar a discussão travada entre essas pessoas não só revela a multiplicidade de ações (reações) e reações (contrarreações) possíveis, mas também ilustra quão caótica a vida em sociedade pode ser. Processualidade mundana é isso, e demanda uma:

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

13. Constitucionalismo Brasileiro - Um vício de formação?

O mais fácil, em Ciências - mais ainda nas Humanidades - é comparar. Compara-se, formula-se um juízo: nada é inválido. Prima facie, contudo. 
Disseram-me, noutro dia, que o Constitucionalismo Brasileiro apresenta um vício de formação. Vislumbra-se por quê. 
A comparação, o modelo clássico, é o americano. Nossa história deveria ter sido a deles, é de se pensar quando, mentalizando o modelo americano, o docente diz ter ocorrido certa anomalia ao longo da formação de nosso Constitucionalismo. Vejamos.
Estado. Organização sócio-político-histórica de indivíduos agrupados abaixo de um ente cujo poder é a soma das parcelas de liberdades indivíduais que os indivíduos abdicam, com fito no alcance de um bem comum a todos.
Estado de Direito. Estado cujas atividades encontram balisas em normas positivadas. O próprio Estado, que tudo pode, renuncia ao exercício arbitrário do poder que lhe é inesto, para agir de acordo com as regras que o todo-social positiva.
Estado Democrático de Direito. Estado normativizado cujo objetivo principal é ser democratico, estar de acordo com a vontade geral, no mais grego das acepções.
Estado Social e Democrático de Direito. Aqui, a Democracia passa aser um objetivo a ser alcançado de modo à preservação do organismo-social como um todo, não mais como um meio de proteção às liberdades individuais.
É o estágio de desenvolvimento constitucional em que nos encontramos. 
Falar-se em vício de desenvolvimento ocorrido numa determinada gênese constitucional é cair num absolutismo jurídico-histórico - a tragetória jurídico-política e histórica de cada país é, assim como a história de vida das pessoas que o compõem, dotada de subjetividade. E, como em tudo que envolve subjetividade, há que ser tratado como relativismo?
Como comparar históricos constitucionais de países que não têm sequer origem comum? Utilizar como padrão de comparação um país anglo-saxão, concluindo ser viciado o desenvolvimento de um país de origens latinas? Ignorância acadêmica.
Constitucionalismo clássico? 
Em História, o clássico que se pode aceitar é o greco-romano - este sim, por configurar uma origem comum, um de onde tudo vem, seria relativamente um padrão possível.
Como dizer ser clássico um constitucionalismo de rebeldes, que pretendeu quebrar com o status quo da realidade histórica em que ocorreu? 
Conclusão: nem clássico o constitucionalismo americano, nem viciado o brasileiro. Viciada a visão de juriscopistas. Leitura histórica crítica para remediar a ignorância acadêmica.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

12. Posição

Dezenove anos de vida e muita gente que me cerca merece, no mínimo, um obrigado. Minha mãe, meu irmão, meus amigos - família; porque família, para mim, é aquele conjunto de pessoas que não te abandonam (e que por isso, dentre outros motivos, merecem amor).
O dia do meu aniversário eu dedico àqueles que, ao lerem, tiverem consciência de que não me abandoram - mãe, irmão, amigos. Aos demais, quero mesmo que o dia oito de julho tenha passado como outro qualquer.



quarta-feira, 30 de junho de 2010

10. Imposição

"A História, especialmente a História da Igreja, é sempre escrita para justificar os sobreviventes'.
                                                   (WEST, Morris; Os fantoches de Deus)

terça-feira, 29 de junho de 2010

9. Contraposição

"A partir do momento em que se aceita a existência de Deus, não importando como se possa defini-Lo, não importando como se explique o relacionamento pessoal com Ele, fica-se para sempre preso à sua presença no centro de todas as coisas. E se fica também dominado pelo fato de que o homem é uma criatura que vive em dois mundos, gravando nas paredes de sua caverna as maravilhas e as experiências de pesadelo de sua peregrinação espiritual".
                                                (WEST, Morris. In: Os fantoches de Deus)

"Acaso, não sabeis? Porventura, não ouvis? Não vos tem sido anunciado desde o princípio?Ou não atentaste para os fundamentos da terra?
Ele é o que está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são como gafanhotos; é ele quem estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar".
                                                                                (Isaías, 40:21 e 40:22)

"Será possível que não chegou ainda a estas paragens e aos ouvidos deste velho santo a notícia de que Deus já morreu? (grifo do autor)
(omissis)
Eu vos ensino o sobre-humano. O homem deve ser superado. Que fizestes para superá-lo. Todos os seres, até agora, criaram algo superior, que está além deles mesmos. Quereis vós ser o refluxo dessa grande maré? Preferis voltar a ser um animal, em vez de superar o homem? O que é o macaco para o homem? Um escárnio ou uma dolorosa vergonha. Pois é isso mesmo que o homem deve ser para o super-homem: um escárnio ou uma dolorosa vergonha".
                             (NIETZSCHE, Friedrich. In: Assim falava Zaratustra)

O que contem o primeiro trecho supra interessa, mas, confesso, tive certa dificuldade em classificar: não é transposição, não é proposição, não é imposição. E está muito aquém de ser uma mera disposição. É, de fato, uma constatação; mas não podemos perder de vista o fato de que este blog é uma composição de posições. Inconcebível a idéia de deformar o conceito - de um blog feito de posições qualificadas.
Como bem aponta o ilustre Dr. Hamilton Dias de Souza¹, a utilidade de se classificar algo é maior ou menor de acordo com o sistema adotado. Assim, num blog de caráter classificatório, como este, em que classificar não é coisa outra senão sua razão ontológica, apenas colacionar um trecho, sem classificá-lo, para além de desfigurar o sistema constiuído (inconstitucional ante o ato constitutivo do blog), seria uma colocação sem objeto ab initio.
Não quis perder o trecho, inspirador para mim, sem embargo de, à hora, não saber como classificá-lo. Pouco a pouco os dois trechos  seguintes vieram à memória,  ensejando este texto, que pretendo seja, a final, enquadrado no tipo contraposição.
Agora, depois de certa reflexão, e considerando o primeiro trecho como uma constatação, que é a externalização de um ponto de vista, que é a vista de um ponto, de alguém que nele se posiciona, afigura-se viável a classificação dele no tipo posição
Contudo, a posição central que referido trecho em si possuía inicialmente passou para os desdobramentos que uma leitura atenta e intertextual  poderia ter: a posição passou do centro para a periferia, dando lugar a uma contraposição possível. Afinal, de que importa a forma como alguém se posiciona sem compará-la com as demais formas de posicionar-se?  Muito difícil que uma opinião individual tenha valor, vez que uma opinião só importa em relação às demais.
A questão, como a temos posta, apesar de numa leitura desatenta parecer, não é Deus - é aceitar a existência de Deus. Ora, o segundo e o terceiro trechos defendem que a existência de deva ser admitida ou negada, respectivamente. Neste eixo aceitar-negar é que reside nossa contraposição. São modos diferentes de enxergar a vida, que ensejam  atribuições de fundamentos distintos (rectius, opostos) à mesma vida.  Ou será que a vida é diferente  conforme se admite ou se nega a exustência de uma divindade, de acordo com o fundamento que se lhe atribui (à vida)? Se a questão é de fundamento, admissível a assertiva, mais que ad argumentandum. Uma vida com Deus é diferente de uma vida sem Deus, em que a diferença mesmo é a presença ou ausência de uma divindade, não importando a posição que esse ente ocupe (fundamental ou acessória) na vida do indivíduo.
Agora, comparar-se uma vida cujo fundamento a ela atribuído pelo ser vivente seja um ser Originário com outra que, em sentido diverso, não tenha como fundamento uma divindade, seria uma comparação impossível, pelo simples fato de que só coisas pertencentes a um mesmo plano é que são comparáveis (axioma da matemática). Mas aí cairíamos num relativismo² exacerbado, porque é só na escala do individual que a vida humana ganha o caráter de, mais do que pertencer  a um plano que lhe é exclusivo, ser um plano em si.
De modo mais geral, as vidas humanas pertencem sim a um mesmo plano, que é o plano da humanidade, numa escala que podemos dizer ser a escala do coletivo.
Ora, se num mesmo conjunto de pessoas existe as que atribuem o fundamento de sua existência a uma divindade, enquanto outras, de modo diverso, não o fazem, claro está que, neste plano - o da Humanidade - essas vidas são perfeitamente comparáveis.
Isto posto, passemos à nossa contraposição em si, que é plenamente possível, como demonstrado acima.
Para quem crê na existência de um Deus originário, do qual todas as coisas da vida decorrem, a trajetória do Homem é no sentido de uma transposição, de escalada - de um plano inferior, de homem-carne, para um plano superior, para homem-espírito: a vida de um indivíduo continua post mortem. É a visão retratada nos primeiro e segundo trechos. A responsabilidade do indivíduo, em última escala, é com ele mesmo - porque o que ele pratica em vida terá consequências para depois dela.
Já para quem sua vida não se deve a um deus, a trajetória in tantum existencialista é no sentido de uma sobreposição histórica: a vida de um indivíduo termina no momento de sua morte, mas é ponto de partida para as vidas que lhe são posteriores. O indivíduo tem responsabilidade de ser melhor do que aquele que o antecedeu, e tem responsabilidade de possibilitar que seu sucessor possa ser ainda melhor do que ele mesmo!
¹ HAMILTON DIAS DE SOUZA. Contribuições Especiais. In: Curso de Direito Tributário. Coord.: Ives Gandra da Silva Martins.
² HEGEL.



sábado, 26 de junho de 2010

8. Posição

Como foi no princípio

É agora e será sempre

Por todos os séculos dos séculos.



segunda-feira, 14 de junho de 2010

7. Transposição

Falo em transposição e penso em escada; degraus, subida. Sair dum nível e ir para outro, mais elevado.
Tenho notado que os últimos dias têm sido dias de transposição, em que venho experimentando uma autonomia que não me deixavam ter e para a qual, sinto, já estava preparado.
É claro que toda autonomia compõe-se de uma certa carga de responsabilidade. Penso numa e a outra me vem à mente, gratuitamente. Não, gratuitamente, não; mas de modo automático. Gosto de responsabilidade. Principalmente das que fazem de mim o dono de minha própria existência - meu único Senhor. 
O que eu não gosto é de estar parado, vendo o mundo se mover. Não gosto de ser a paisagem. Se tem corpo que quer  - e merece - estar num acelerado movimento, este corpo sou eu. Move on. On and on. On and on. Talvez daí é que venha minha paixão por potência, por carros. Não quero parar. A caminho de ser sempre o melhor, para quando for, de fato, competir comigo mesmo mais um pouco. 
Estou realizado.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

6. Transposição - Tryin' everything to just feel better

Gripe. Quero melhorar. Dor no corpo, nariz entupido. Querer melhorar me faz lembrar das tentativas 'to just feel better' de que fala a música. Hoje tem mais, mas não poderia deixar de postar essa (e até cantaria, não fosse meu nariz entupido).

domingo, 23 de maio de 2010

5. Transposição - De aceitável a aceito.



Meu final de semana foi diferente; a ponto de eu sentir próximo o momento da dúplice transposição de alguém meramente aceitável para alguém efetivamente aceito. Dúplice pelo fato de que ser aceito importa o fato de eu aceitar a pessoa que me aceita.
Quero repetir o que se passou na noite de sábado.

4. Preliminar de posição

A preparar terreno para o nosso próximo post sobre posições, coloco a presente preliminar:



a ser comentada segundo critérios de conveniência e oportunidade.

3. Interposição - Apelando

"If you just realize
What I just realized
That we'd be perfect for each other
And we'll never find another
Just realize
What I just realized
We'd never have to wonder
If we missed out on each other, now".

Interposição: sf 1. Posição intermediária de uma coisa entre outras. 2. Intervenção. 3. Posto entre. 4. Metido de permeio.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

2. Proposição - Freeze the moment.

Em nosso primeiro post sobre proposições não pode faltar uma definição do termo. Definição que será rápida, porque mais importante do que qualquer definição que se possa dar ao conceito é a proposição em concreto que pretendo fazer: freeze the moment.
Mais uma vez Ruth Rocha: Proposição sf 1. Ato de propor. 2. Aquilo que se propõe. 3. Proposta afirmativa. 
Propomos algo quando a realidade como se nos apresenta já não tem mais cabimento, quando se admite a necessidade e a possibilidade de uma mudança para melhor. Proposição compreende sempre um anseio por solução - propor para transpor.
Venho hoje, serenamente, fazer proposição como daquelas que há tempos não faço. Há tempos não faço porque são poucos os que conseguem gerar em mim essa necessidade de mudança que, como disse, antecede a proposição em si. Demoro a encontrar quem seja capaz de me fazer reconhecer que melhor não é estar só, e que há companhias outras, que não a minha, capazes de me fazer sentir bem. E quando encontro, à proposição se opõe uma intensa dificuldade de me expressar - que é o que sinto agora mesmo, enquanto escrevo este post,  com destinatário certo.
Melhor é não estar só. Esclareço que melhor é não estar só, quando o acompanhante é a pessoa que você pode convictamente dizer que é a certa. Melhor é não estar só, com a companhia ideal. Apesar de uma timidez, uma palpitação bem fraquinha e um perder-se em olhos alheios que não lhe são típicos tomarem lugar na situação, quando ele está a poucos metros - e ao mesmo tempo inalcançável. Quando o que você mais quer - e pediria se soubese que fosse ser atendido - é que a cena se congele: freeze the moment.
Hoje mesmo, na cena mesma, eu ouvi a música cujo título comporta o núcleo da proposição que faço, no sentido de congelar aqule beijo inocente de boa noite, de deixar minha mão na sua cintura e me deixar continuar respirando bem fundo perto de você, apenas e tão somene para aproveitar seu cheiro - que ainda não conhecia, mas que apreciei, como muito o que lhe é inerente. Freeze the moment. A música, no refrão, é a proposição que preciso (muito mais do que quero) fazer:
Freeze the moment
It's never been better
Freeze all over
We won't last forever
You said that you're sorry for pushing me
But then smiled when I opened my eyes
I'm gonna freeze the moment
While we're together
(Freeze. Jordin Sparks)
De fato, eu congelaria o momento, pois não tenho tido iguais. Senti mais do que caberia naquele instante. Mal te abracei e já estava me virando para repetir o boa noite e indo embora - querendo ficar. E querendo que o dito beijo de boa noite não tivesse sido apenas no rosto. Querendo que o boa noite em si tivesse sido dado não na sua porta, mas na sua cama, do seu lado, holding hands. Querendo que o abraço tivesse sido menos suave, mais forte, digno dos que casais dão.
Na descrição da música, eu não seria quem é puxado, seria o que puxa. Mas, ao contrário, I'm not sorry for pushing you - gostei de tê-lo feito. Quero fazê-lo com mais frequência e cada vez com mais propriedade, e está aí o porquê desta proposição, que é também um pedido, para que possa congelar de fato os próximos momentos (que pretendo que hajam), while we're together. Cause we will be together.


domingo, 16 de maio de 2010

1. Posição - O homem prevaricará.

Resolvi começar a traçar as linhas de nossa teoria com um post sobre posições. Isso porque posição é a raiz de toda as as palavras que servem para designar os componentes da realidade que processamos e em que somos processados - proposições, interposições, imposições, oposições.
Posição, segundo Ruth Rocha, é: 1. Situação social, moral ou econômica. 2. Lugar onde uma pessoa ou coisa está colocada. 3. Modo de colocar o corpo ou partes dele. Para os fins desta teoria, cremos ser a primeira definição a mais pertinente: o modo do indivíduo de situar-se social, moral ou econômicamente.
Inclusive, anote-se que a  definição colacionada é falha, porque deixa de conter o sentido político que o termo pode carregar. É claro que o que é político não deixa - nem um pouco - de dialogar com o que há de social, moral e econômico; mais do que dialogar, o que é político não é outra coisa senão a resultante desses três vetores da humana atividade. O que não obriga qualqer leitor a levar  isso em conta quando da ausência da coisa política numa definição, porque se existe política na interação dos vetores citados, existe política também de forma isolada.
Feita a crítica, voltemos às posições, componentes representativos da processualidade mundana. Posições enquanto as formas com que os indivíduos se comportam.
Analisar o comportamento do ser humano, compreendendo-o minimamente - que seja -, tem como consequência um feeling das situações que torna a vida previsível na medida em que se adquire experiência. Ora, quando digo que a vida é dotada de processualidade, que é processual, digo não só que é. Digo que tem sido; digo que sempre foi. Spencer esclareceria,  nesse ponto, que a inteligência humana é resultado do acúmulo histórico de informações. Então, apesar de a experiência humana ter sido desde sempre processual, essa processualidade foi ganhando complexidade conforme nossa própria evolução. Passamos da processualidade simples e imediata do homem primitivo - matar para viver - para a processualidade complexa e mediata do homem contemporâneo - que mata por dinheiro porque precisa dele para viver. Realmente, entre o matar e o viver puro e simples do homem primitivo, ao longo de nossa história, muita coisa foi-se acumulando. Se o homem primitivo matava para comer e assim se manter vivo, o homem contemporâneo mata por dinheiro, que compra coisas outras que não apenas comida. Dinheiro compra comida, mas compra roupas, mas compra carros, compra casa (logíquos tempos em que uma caverninha mal ensolada satisfazia o homem /beygos), compra pessoas.
Grifo porque é daí, da capacidade redutiva do próprio homem a dinheiro ou qualquer coisa correspondente, que tirei essa idéia de que  não só é como tem sido desde sempre,  para o que eu ainda não havia atentado - mas acabaria atentando, e aconteceu mais cedo do que eu esperaria.
Estava hoje quebrando minha cabeça, tentando achar algo sobre o que escrever, enquanto falava sobre banhos com um conhecido, no messenger. Olhei em volta e vi a Bíblia - adoro a Bíblia, fique surpresa, humanidade(!), e a leio com frequência diária (pra quem não sabia dessa: beygos). Vejo a Bíblia como o primeiro e mais detalhado Tratado de Processo Mundano, e um dos mais antigos, além de ser de onde tiro as orientações que dou à minha existência.
Vi a Bíblia e abri, como num sorteio (mamãe mandou eu escolher...). Acabou caindo numa página dobrada, que eu devo ter lido um dia, e toda grifada e com trechos em destaque. Um deles me chamou a atenção, que é justamente o que me levou ao grifo supra, no sentido de que o homem é comprável (primeiro princípio da processualidade mundana):

Parcialidade não é bom,
porque até por um bocado de pão
o homem prevaricará
(Provérbios, 28:21)

É de se notar, no trecho, que a parte que coloca o homem como um ser que se vende está isolada em relação aos termos restantes. Não é por acaso, foi intencional.
Em verdade, é uma predição. O homem prevaricará. Não se trata de possibilidade, senão o autor escreveria que o homem pode prevaricar. Não! O homem prevaricará. É certo que ele vai fazer isso, não importa a circunstância (até por um bocado de pão, ou por menos), ele prevaricará.
Em segundo lugar, é porque o homem prevaricará que parcialidade não é bom, porque até mesmo aquele do lado de quem você se coloca está sujeito a prevaricar em seu detrimento. Neste trecho, Deus ensina a seus súditos uma forma de estar menos sujeito a esta lei da processualidade mundana (lei natural, frise-se). Não tome lados, para não se sentir traído duas vezes. Uma vez deve ser o bastante, de fato.
De todo o exposto, temos que o mais importante é o fato de que a processualidade da atividade humana não mudou muito de longos tempos para cá, há dois mil anos o autor da Bíblia já sabia que o homem é um animal prevaricador. Social porque prevaricador; político porque prevaricador.
Ora, não é pacífico na doutrina que o homem se agrupou por ser mais fácil sobreviver em conjunto. Está aí uma das grandes prevaricações de sociedade. A luta da conveniência.
Meus amigos, se vocês notaram essa posição humana só agora, peço que não se revoltem. Até vocẽs prevaricam. É da natureza humana. Nem o autor bíblico nos aconselhou à revolta. Pelo contrário, apenas nos aconselhou ao cuidado. Homem, cuidado com os homens.
O conselho se repete quando aquele pensador diz que o homem é o lobo do homem (eu diria que é o lobo de tudo, até do homem, que é a última ratio). O homem só ataca seu semelhante quando não há outa escolha. E não é por bondade; é porque atacar seu semelhante é como atacar a si mesmo. Uma espécie de dor que o ser humano só aceita - de forma inconsciente - sentir quando não consegue encontrar formas melhores de resolver seus problemas e sanar suas necessidade. Acontece que, com o passar das eras, o homem foi ficando menos criativo. Daí ser cada vez mais constantes os ataques que o homem faz a ele mesmo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O efeito distributivo da processualidade mundana

Começo a pensar quando penso em começar um blog. Blogo, logo penso; penso, logo existo.
Silogismo falho, tanto pelo ângulo de que eu mal blogo quanto pelo ângulo de que nem sei o que efetivamente é existir, para dizer que sim ou que não - existo mesmo, ou sou só um borrão numa realidade que nasceu em branco? E olhe que admitir que a realidade nasceu em branco, e que foi se borrando aos poucos, é admitir que aos poucos a realidade foi-se tornando menos real! Tampouco sei se penso: penso que penso.
Mas o problema, se o que queremos é compromisso com a verdade - o que torna o discurso zetético, quando, a despeito disso, preparo o terreno para passar a demonstrar que a problemática toda da vida é essencialmente dogmática - não está em pensar. Está em saber. Em saber que se sabe, a coisa piora: deixa de ser problema e cruza a linha do caótico. Exemplo melhor não exite do que o do homem que sabe que sabe¹. A questão é que não sei se existo; não sei se penso; não sei por que blogo. Contudo, sei que blogar me faz pensar, que me faz existir um pouco (para a História, v.g., tão dependente da escrita). Aliás, prefiro mesmo que seja a História que me descubra - e não a Antropologia, já que os instrumentos meus que ela poderia encontrar são por demais íntimos e o que escrevo é feito mesmo pra ser lido. Prefiro que leiam o que foi feito pra sê-lo a que encontrem algo que não necessariamente era para ser achado.
Pensei em criar este blog e comecei um processo (anote-se desde já que falaremos muito em processo e processualidade em nossas postagens) mental que foi ganhando complexidade conforme avançava - como tudo o que evolui. Evoluir é, por excelência, tornar-se complexo - num raciocínio poético que lembra a serenidade de Ayres Britto. O que me lembra das palavras dele, ditas para mim e pessoalmente, sobre o que Heráclito ensinava: "Tudo muda. Só a mudança é que é imutável".
Uma breve nota sobre a serenidade. Que para mim é qualidade daqueles que, mais do que aceitar (o que, isoladamente, é defeito, não qualidade), compreendem o mundo da forma com ele se lhes apresenta, e com significativa profundidade. Está aí um dos princípios do raciocínio que nos levará a uma verdadeira teoria da processualidade mundana: compreender compreende aceitar. Entender compreende admitir. Melhorar também. Tudo gira em torno de admissões. A realidade é a premissa em torno da qual encadearemos o raciocínio que descreverá essa mesma realidade. Do mundo. Daí processualidade mundana.
Voltando: pensei em criar um blog e comecei um processo mental que foi ganhando complexidade. Não sabia o que queria, mas sabia que queria algo a ver com o meu dia-a-dia, que começa jurídico no trabalho e termina jurídico na faculdade. Pensei em "embargos", que achei pobre pela palavra. Não quero parecer um chato que só pensa em embargar (embargo é forte, mas traz um quê de inconveniente - alguém que vive embargando me leva a pensar num estraga prazeres, o que eu não pretendo ser). Mas eu gosto da essência de um belo embargo de declaração, que, das peças que escrevi, achei uma das mais interessantes pela finalidade e pela eficácia que é pra ter (não que efetivamente a tenha).
Por substituição, considerei "oposições". Continuei incomodado: um embargo é sim uma espécie de oposição, mas agora o título passava à remessa para bandeiras vermelhas, foices e machados que eu nunca quis segurar. Mesmo porque segurar esse tipo de coisas dá calos. Se não sou de esquerda, também não sou de direita. Tampouco centrista. Estou é suspenso no ar, pairando sobre tudo o que se encontra no meio e dos lados. Sou um pouco como o Estado, então. Só que eu não surgi do consentimento coletivo. Não sou uma criação do Direito - sou mais uma imposição da natureza (que é muito mais coercitiva do que o Estado, com efeito). Quem sabe eu não seja uma mostra que a natureza resolveu dar de seu poder coercitivo?
Acontece que, ao pensar em mim como imposição, notei que isto era algo que também queria para a fórmula de meu blog (a fórmula do sucesso, beygos). E a partir daí foi uma questão de desdobramentos (como em todo processo, judicial, administrativo, científico ou mundano). Queria oposições, mas queria imposições. Queria também proposições (reclamar sem solucionar é coisa de brasileiro; e, como eu sou um europeu nascido no Novo Mundo,não posso reclamar sem propor soluções), e interposições. E composições, e, mais ainda, transposições. Soluções.
Ora, no fundo, no fundo, o que eu queria mesmo (e continuo querendo) são posições qualificadas, reunidas no mesmo periódico irregular, cada qual servindo a um propósito, o que qualquer pessoa de inteligência mediana descreveria matematicamente como:

Oposições + Interposições + Imposições + Proposições = (O + Inter + Im + Pro)posições

Se a realidade se processa de acordo com as posições em que cada um se coloca - propondo, se opondo, interpondo, impondo, compondo, transpondo -, aí está a demonstração da distributividade desse processo.
E aqui eu já me arrisco a explicar por que digo que "a problemática toda da vida é essencialmente dogmática". É porque a vida, como este blog, na medida em que é composta por posições qualificadas ao atingimento de propósitos certos, é um corte na realidade, não uma visão ampla dela.Tudo o que é voltado a propósitos pressupõe a escolha entre duas opções, uma melhor e outra pior, que é fruto do convencimento de que uma é melhor do que a outra, o que é essencialmente dogmático.
A jornada de investigação dessa processualidade distributiva e (por que não?) da distributividade processual da vida começou.
¹ Homo sapiens sapiens.