Começo a pensar quando penso em começar um blog. Blogo, logo penso; penso, logo existo.
Silogismo falho, tanto pelo ângulo de que eu mal blogo quanto pelo ângulo de que nem sei o que efetivamente é existir, para dizer que sim ou que não - existo mesmo, ou sou só um borrão numa realidade que nasceu em branco? E olhe que admitir que a realidade nasceu em branco, e que foi se borrando aos poucos, é admitir que aos poucos a realidade foi-se tornando menos real! Tampouco sei se penso: penso que penso.
Mas o problema, se o que queremos é compromisso com a verdade - o que torna o discurso zetético, quando, a despeito disso, preparo o terreno para passar a demonstrar que a problemática toda da vida é essencialmente dogmática - não está em pensar. Está em saber. Em saber que se sabe, a coisa piora: deixa de ser problema e cruza a linha do caótico. Exemplo melhor não exite do que o do homem que sabe que sabe¹. A questão é que não sei se existo; não sei se penso; não sei por que blogo. Contudo, sei que blogar me faz pensar, que me faz existir um pouco (para a História, v.g., tão dependente da escrita). Aliás, prefiro mesmo que seja a História que me descubra - e não a Antropologia, já que os instrumentos meus que ela poderia encontrar são por demais íntimos e o que escrevo é feito mesmo pra ser lido. Prefiro que leiam o que foi feito pra sê-lo a que encontrem algo que não necessariamente era para ser achado.
Pensei em criar este blog e comecei um processo (anote-se desde já que falaremos muito em processo e processualidade em nossas postagens) mental que foi ganhando complexidade conforme avançava - como tudo o que evolui. Evoluir é, por excelência, tornar-se complexo - num raciocínio poético que lembra a serenidade de Ayres Britto. O que me lembra das palavras dele, ditas para mim e pessoalmente, sobre o que Heráclito ensinava: "Tudo muda. Só a mudança é que é imutável".
Uma breve nota sobre a serenidade. Que para mim é qualidade daqueles que, mais do que aceitar (o que, isoladamente, é defeito, não qualidade), compreendem o mundo da forma com ele se lhes apresenta, e com significativa profundidade. Está aí um dos princípios do raciocínio que nos levará a uma verdadeira teoria da processualidade mundana: compreender compreende aceitar. Entender compreende admitir. Melhorar também. Tudo gira em torno de admissões. A realidade é a premissa em torno da qual encadearemos o raciocínio que descreverá essa mesma realidade. Do mundo. Daí processualidade mundana.
Voltando: pensei em criar um blog e comecei um processo mental que foi ganhando complexidade. Não sabia o que queria, mas sabia que queria algo a ver com o meu dia-a-dia, que começa jurídico no trabalho e termina jurídico na faculdade. Pensei em "embargos", que achei pobre pela palavra. Não quero parecer um chato que só pensa em embargar (embargo é forte, mas traz um quê de inconveniente - alguém que vive embargando me leva a pensar num estraga prazeres, o que eu não pretendo ser). Mas eu gosto da essência de um belo embargo de declaração, que, das peças que escrevi, achei uma das mais interessantes pela finalidade e pela eficácia que é pra ter (não que efetivamente a tenha).
Por substituição, considerei "oposições". Continuei incomodado: um embargo é sim uma espécie de oposição, mas agora o título passava à remessa para bandeiras vermelhas, foices e machados que eu nunca quis segurar. Mesmo porque segurar esse tipo de coisas dá calos. Se não sou de esquerda, também não sou de direita. Tampouco centrista. Estou é suspenso no ar, pairando sobre tudo o que se encontra no meio e dos lados. Sou um pouco como o Estado, então. Só que eu não surgi do consentimento coletivo. Não sou uma criação do Direito - sou mais uma imposição da natureza (que é muito mais coercitiva do que o Estado, com efeito). Quem sabe eu não seja uma mostra que a natureza resolveu dar de seu poder coercitivo?
Acontece que, ao pensar em mim como imposição, notei que isto era algo que também queria para a fórmula de meu blog (a fórmula do sucesso, beygos). E a partir daí foi uma questão de desdobramentos (como em todo processo, judicial, administrativo, científico ou mundano). Queria oposições, mas queria imposições. Queria também proposições (reclamar sem solucionar é coisa de brasileiro; e, como eu sou um europeu nascido no Novo Mundo,não posso reclamar sem propor soluções), e interposições. E composições, e, mais ainda, transposições. Soluções.
Ora, no fundo, no fundo, o que eu queria mesmo (e continuo querendo) são posições qualificadas, reunidas no mesmo periódico irregular, cada qual servindo a um propósito, o que qualquer pessoa de inteligência mediana descreveria matematicamente como:
Oposições + Interposições + Imposições + Proposições = (O + Inter + Im + Pro)posições
Se a realidade se processa de acordo com as posições em que cada um se coloca - propondo, se opondo, interpondo, impondo, compondo, transpondo -, aí está a demonstração da distributividade desse processo.
E aqui eu já me arrisco a explicar por que digo que "a problemática toda da vida é essencialmente dogmática". É porque a vida, como este blog, na medida em que é composta por posições qualificadas ao atingimento de propósitos certos, é um corte na realidade, não uma visão ampla dela.Tudo o que é voltado a propósitos pressupõe a escolha entre duas opções, uma melhor e outra pior, que é fruto do convencimento de que uma é melhor do que a outra, o que é essencialmente dogmático.
A jornada de investigação dessa processualidade distributiva e (por que não?) da distributividade processual da vida começou.
¹ Homo sapiens sapiens.
¹ Homo sapiens sapiens.

Nenhum comentário:
Postar um comentário