"A partir do momento em que se aceita a existência de Deus, não importando como se possa defini-Lo, não importando como se explique o relacionamento pessoal com Ele, fica-se para sempre preso à sua presença no centro de todas as coisas. E se fica também dominado pelo fato de que o homem é uma criatura que vive em dois mundos, gravando nas paredes de sua caverna as maravilhas e as experiências de pesadelo de sua peregrinação espiritual".
(WEST, Morris. In: Os fantoches de Deus)
"Acaso, não sabeis? Porventura, não ouvis? Não vos tem sido anunciado desde o princípio?Ou não atentaste para os fundamentos da terra?
Ele é o que está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são como gafanhotos; é ele quem estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar".
(Isaías, 40:21 e 40:22)
"Será possível que não chegou ainda a estas paragens e aos ouvidos deste velho santo a notícia de que Deus já morreu? (grifo do autor)
(omissis)
Eu vos ensino o sobre-humano. O homem deve ser superado. Que fizestes para superá-lo. Todos os seres, até agora, criaram algo superior, que está além deles mesmos. Quereis vós ser o refluxo dessa grande maré? Preferis voltar a ser um animal, em vez de superar o homem? O que é o macaco para o homem? Um escárnio ou uma dolorosa vergonha. Pois é isso mesmo que o homem deve ser para o super-homem: um escárnio ou uma dolorosa vergonha".
(NIETZSCHE, Friedrich. In: Assim falava Zaratustra)
O que contem o primeiro trecho supra interessa, mas, confesso, tive certa dificuldade em classificar: não é transposição, não é proposição, não é imposição. E está muito aquém de ser uma mera disposição. É, de fato, uma constatação; mas não podemos perder de vista o fato de que este blog é uma composição de posições. Inconcebível a idéia de deformar o conceito - de um blog feito de posições qualificadas.
Como bem aponta o ilustre Dr. Hamilton Dias de Souza¹, a utilidade de se classificar algo é maior ou menor de acordo com o sistema adotado. Assim, num blog de caráter classificatório, como este, em que classificar não é coisa outra senão sua razão ontológica, apenas colacionar um trecho, sem classificá-lo, para além de desfigurar o sistema constiuído (inconstitucional ante o ato constitutivo do blog), seria uma colocação sem objeto ab initio.
Não quis perder o trecho, inspirador para mim, sem embargo de, à hora, não saber como classificá-lo. Pouco a pouco os dois trechos seguintes vieram à memória, ensejando este texto, que pretendo seja, a final, enquadrado no tipo contraposição.
Agora, depois de certa reflexão, e considerando o primeiro trecho como uma constatação, que é a externalização de um ponto de vista, que é a vista de um ponto, de alguém que nele se posiciona, afigura-se viável a classificação dele no tipo posição.
Contudo, a posição central que referido trecho em si possuía inicialmente passou para os desdobramentos que uma leitura atenta e intertextual poderia ter: a posição passou do centro para a periferia, dando lugar a uma contraposição possível. Afinal, de que importa a forma como alguém se posiciona sem compará-la com as demais formas de posicionar-se? Muito difícil que uma opinião individual tenha valor, vez que uma opinião só importa em relação às demais.
A questão, como a temos posta, apesar de numa leitura desatenta parecer, não é Deus - é aceitar a existência de Deus. Ora, o segundo e o terceiro trechos defendem que a existência de deva ser admitida ou negada, respectivamente. Neste eixo aceitar-negar é que reside nossa contraposição. São modos diferentes de enxergar a vida, que ensejam atribuições de fundamentos distintos (rectius, opostos) à mesma vida. Ou será que a vida é diferente conforme se admite ou se nega a exustência de uma divindade, de acordo com o fundamento que se lhe atribui (à vida)? Se a questão é de fundamento, admissível a assertiva, mais que ad argumentandum. Uma vida com Deus é diferente de uma vida sem Deus, em que a diferença mesmo é a presença ou ausência de uma divindade, não importando a posição que esse ente ocupe (fundamental ou acessória) na vida do indivíduo.
Agora, comparar-se uma vida cujo fundamento a ela atribuído pelo ser vivente seja um ser Originário com outra que, em sentido diverso, não tenha como fundamento uma divindade, seria uma comparação impossível, pelo simples fato de que só coisas pertencentes a um mesmo plano é que são comparáveis (axioma da matemática). Mas aí cairíamos num relativismo² exacerbado, porque é só na escala do individual que a vida humana ganha o caráter de, mais do que pertencer a um plano que lhe é exclusivo, ser um plano em si.
De modo mais geral, as vidas humanas pertencem sim a um mesmo plano, que é o plano da humanidade, numa escala que podemos dizer ser a escala do coletivo.
Ora, se num mesmo conjunto de pessoas existe as que atribuem o fundamento de sua existência a uma divindade, enquanto outras, de modo diverso, não o fazem, claro está que, neste plano - o da Humanidade - essas vidas são perfeitamente comparáveis.
Isto posto, passemos à nossa contraposição em si, que é plenamente possível, como demonstrado acima.
Para quem crê na existência de um Deus originário, do qual todas as coisas da vida decorrem, a trajetória do Homem é no sentido de uma transposição, de escalada - de um plano inferior, de homem-carne, para um plano superior, para homem-espírito: a vida de um indivíduo continua post mortem. É a visão retratada nos primeiro e segundo trechos. A responsabilidade do indivíduo, em última escala, é com ele mesmo - porque o que ele pratica em vida terá consequências para depois dela.
Já para quem sua vida não se deve a um deus, a trajetória in tantum existencialista é no sentido de uma sobreposição histórica: a vida de um indivíduo termina no momento de sua morte, mas é ponto de partida para as vidas que lhe são posteriores. O indivíduo tem responsabilidade de ser melhor do que aquele que o antecedeu, e tem responsabilidade de possibilitar que seu sucessor possa ser ainda melhor do que ele mesmo!
¹ HAMILTON DIAS DE SOUZA. Contribuições Especiais. In: Curso de Direito Tributário. Coord.: Ives Gandra da Silva Martins.
² HEGEL.