segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Especial, por quê?

Um dia a mais. As mesmas pessoas, os mesmos compromissos, os mesmos sonhos-algemas que encarceram em vez de libertar. Ele estava cansado. Cumprindo horário. A voz da professora ao fundo, na mesma função da água quando paramos um tempo mergulhados na piscina - fazendo pressão. "Meu Deus, ela não para de falar?"
"Tenho algo para você!", "Pra mim?", "Um presente..."
Um presente? "Mas o que eu fiz pra ela querer me dar um presente?". Para ela, nada.
"Um presente de outra pessoa, que fiquei de lhe entregar...", "Ah! Tá explicado. Até parece que ela ia querer me dar um presente, nunca fiz nada pra ela..."
"Ela deixou um espelho, para, toda vez que você se olhar nele, você se sentir especial. E um cartão, com um motivo por que ela acha que você é especial".
Ele não sabia por quê, mas sentiu vontade de chorar. Gostava de ser lembrado. Andara meio triste naquele dia - de nenhuma novidade. Não que, nos últimos dias, não tivesse havido novidades para ele: houve - das boas. Mas mesmo as melhores novas permanecem as mesmas conforme os dias vão passando - nem ele, que gostava tanto e mudança, mudava.
"Your gentle, kind attitudes make people hapier!! Thank you"
Notou que não havia ponto final. E concordou consigo mesmo de que seria bom que, de fato, não houvesse. De todos naquele curso de férias, uma das pessoas de quem mais tinha gostado era da mocinha de Coréia. De fato, seus gestos respeitosos, sua voz sempre contida e uma simpatia meio implícita faziam dela alguém sempre agradável para ele. Empatia...
De todas as qualidades que pensava possuir, nunca imaginou que pudesse ser lembrado por sua gentileza. Nesse ponto já se recordava de que, numa noite, depois da aula, encontrara a mocinha sentada na calçada, à espera da pessoa que a viria buscar. Nunca fora contido, mas temeu, naquela noite, que fosse levado a mal por ter "Tchaaaaaau!" e dado um beijo no rosto da garota. "Afinal, eu nem conheço a cultura da menina! Cada merda, viu..."
"Ah! Ela não vai ficar brava... Pensando bem, eu gosto dela... Tão simpática!"
No meio da aula ele olhava para o espelho azul que havia ganhado. "Especial..."
Não conseguia se lembrar da última vez que alguém se referira a ele como sendo alguém: "Especial...", era normal para ele que o considerassem legal, até engraçado. Mas "Especial..."? Não era algo familiar...
"O que faz de uma coisa algo especial?"
Naquele dia, foi para casa pensando nisso. O que determina que algo seja ou não especial? Não sabia. Sabia que, muitas vezes, dizemos "Isto é especial" ou "Fulano é especial", sem saber, ao certo, por que pensamos assim. "Verdade, a gente vive dizendo que isso ou aquilo é especial, sempre sem saber por que achamos isso... Interessante".
Nesse passo, já meio enxarcado da chuva, quase na rua de casa: "Pera aí! Mas eu sempre achei que ela fosse especial também!"
Interessante, o processo mental foi ligeiro, mas em pouco tempo já tinha descoberto todo o esquema. Que achar que algo ou alguém é especial não é hipótese, mas consequência. Que, geralmente, não nos perguntamos por que algo é especial, porque o conceito de "especial" não foi feito para ter lugar em perguntas. Que especial é resposta, que especial é conclusão. Que algo que "é isso, aquilo e aquilo outro", por ter essas características, é especial. Que não se pergunta "Especial, por quê?", mas que se conclui, diante de determinados traços, que algo é especial.
Mas agora ele já estava viciado. "O que é especial para mim?"
E naquela noite, além de lembrar daquela garota que fizera com que ele tivesse vontade de chorar um choro gostoso - que fizera com que aquele aperto que há tanto tempo não sentia o tocasse -, só conseguia lembrar de um garoto. Também de olhos puxados. Também de cabelos negros. Baixinho, magrinho, sorriso bonito, inteligente. "Especial, por quê?".  "Porque ele é inteligente, porque o sorriso dele é bonito, porque ele é baixinho e magrinho, que dá medo de machucar".
E por tantos outros motivos...

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